Grupos Políticos Municipais

ps1ppd-psd-1cds-pp1cdu1be1pan1mpt1

Calendário de reuniões

loader

Sintra - Património Mundial - Fim da Solidão Histórica - texto de Miguel Real «Escritor, ensaísta e filósofo que reside em Sintra há várias décadas»

vila 2

A configuração histórica que a atribuição a Sintra de Património da Humanidade por parte da UNESCO revela, com justiça, o destacado destino cultural que a nossa Vila recolheu ao longo dos 800 anos de história de Portugal.

Destino que a liga, num primeiro momento, à Corte de Lisboa, espécie de vila de vilegiatura e desenfado para reis e nobres e de retaguarda de segurança para a vivência de momentos dramáticos, como as diversas pestes que assolavam periodicamente a capital do reino, e, num segundo momento, já autónoma, a partir do século XIX, sobretudo a partir da intervenção operada na configuração paisagística e patrimonial da Serra pelo rei consorte D. Fernando II, como o local mais belo e romântico por excelência adjacente a Lisboa.

Ao longo dos cerca de 20 anos do reinado de D. Carlos (1890 – 1908), com a decadência do Romantismo e a emergência do Mar como destino turístico, Sintra competiu com Cascais na atracção de figuras gradas da cultura e da política portuguesas. Porém, logo ficou espontaneamente decidido, pela elite aristocrata e financeira, ao longo do Estado Novo (construção da marina, criação do Casino Estoril, privilégio atribuído à praia do Tamariz, escolha do eixo Estoril-Cascais para residência de aristocratas estrangeiros exilados, construção da estrada da Marginal…), ser Cascais sobretudo um destino turístico e Sintra um destino seleccionadamente cultural.

Ambas as vilas afastavam de si, então, as grandes massas populacionais, reservando-se Sintra para refúgio das figuras intelectuais e culturais, em convívio com a aristocracia de antigos pergaminhos, e, Cascais, para refúgio das elites económicas, financeiras e políticas.

Entre o Mar e a Serra, a novidade turística novecentista daquele parecia ter historicamente vencido esta, identificada com lentidão, repouso e pacificação de uma vida agitada. O Mar, pelo contrário, tornara-se sinónimo de divertimento, de aceleração moderna de vida, de fruição e prazer em convívio. Contra Cascais, Sintra só tinha para oferecer as suas praias, que, a partir da década de 1950, começaram a ser abundantemente frequentadas.

Mas eis que a atribuição de Património Mundial e de Paisagem Cultural a Sintra em meados da década de 90, a acabar o século, veio justamente alterar esta situação histórica, permitindo atrair para si as grandes multidões citadinas e as grandes massas estrangeiras que buscam na Vila e arredores o conhecimento de um património monumental e paisagístico de ímpar relevo e beleza.

Para além da exigência rigorosa de conservação do património e dos parques de Sintra, a atribuição das duas classificações relevantes pela Unesco inverteu a solidão histórica em que a Vila e arredores viviam desde o Romantismo oitocentista e Sintra tornou-se, por assim dizer, um dos mais importantes destinos turísticos de Portugal.

Assim, nestes primeiros 15 anos do nosso século, a característica cultural relevante que tem marcado e marca a Vila é justamente o turismo, não um qualquer turismo, que sempre o houve ao longo do passado século, mas, sobretudo, o turismo de massas: o turista invadiu-nos e a Vila reagiu alterando percursos pedestres, embelezando edifícios, abrindo lojas e lojinhas, agitando-se à noite, promovendo novos meios de transporte com diferentes destinos, todos turísticos, claro, criando esplanadas, impulsionando novos espectáculos e meios de diversão, abrindo antigos palácios à população…

O turismo de massas invadiu Sintra e, hoje, à compita com Cascais, a antiga diferença entre Mar e Serra já não faz a tradicional diferença. Sintra voltou a estar na moda, como no tempo de Eça de Queirós…

Sintra perdeu a sua solidão histórica de Vila altiva, orgulhosa de um passado relevante (ao ponto de ser citada em Os Lusíadas), aristocraticamente soberba e, revolução cultural de grandes dimensões, tornou-se, no século XXI, destino turístico de amplas massas portuguesas e estrangeiras.

Saibamos nós, os coevos, harmonizar o passado histórico de Sintra com os requisitos que as grandes massas turísticas exigem, habitualmente com perda de qualidade cultural, e legar aos vindouros a nova Sintra do século XXI tão bela quanto a herdada.

Miguel Real

Quinta de Santo Expedito,

Colares

  |  Copyright: Câmara Municipal de Sintra 2017